quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

51 tons de preto

 Se não se identificarem com a crítica que ela valha ao menos como sugestão para outros livros e autores.
Carlos Araújo no Jornal Cruzeiro do Sul


Que a trilogia “Cinquenta tons de cinza” da inglesa E.L. James é um fenômeno do mercado editorial, não resta dúvida. Que este resultado tenha provocado polêmica e desconcerto, reeditando o eterno conflito entre mercado e literatura, não dá para entender. Dizer que isto é literatura ou não e ter posição intolerante em relação a um ou outro caso faz recordar aquela velha conversa do que é arte ou não: um dos lados corre o risco de estar equivocado.

O primeiro a levantar a questão foi o respeitado escritor Milton Hatoum, um dos maiores nomes da atual galeria de autores brasileiros, em uma crônica publicada no “Estadão”. Ele descreveu a solidão de um escritor à procura de leitores, na Feira do Livro de Guadalajara de 2012, enquanto todos estavam aglomerados em torno de um local de venda da trilogia de E.L. James. Hatoum não economizou palavras: “O tempo se encarrega de apagar todos os tons de cinza, e ainda arrasta para o esquecimento os crepúsculos, cabanas e toda essa xaropada que finge ser literatura.”

Mais recentemente, o jornalista Sérgio Augusto também se inspirou nos tons da trilogia para recordar que desde a década de 1960 o mercado editorial brasileiro teve melhores momentos. Como exemplo, lembrou que em 1966 o “Ulisses” de James Joyce, traduzido por Antonio Houaiss, chegou ao topo dos livros mais vendidos e fez companhia aos brasileiros Carlos Heitor Cony, Mário Palmério e Érico Veríssimo.

Se me permitem ser um intruso nessa questão, o livro também é um produto de mercado e é ótimo quando determinado título rouba a cena por vender muito acima da média. Assim como uma montadora de carros não produz unidades em série para ficarem acumuladas nos pátios, editoras não assumem os cursos de publicação com a expectativa de que os livros fiquem encalhados nos depósitos. Se a alma da produção de sabonetes é o lucro, por que a mesma equação não deve reger o mercado editorial? Sabonetes têm utilidades palpáveis, dirão uns. Livros também.

Esse debate é tão antigo quanto a literatura. No Brasil, escritores que vendem muito chegam ao ponto de sofrer preconceitos. Jorge Amado, Rubem Fonseca, Paulo Coelho, Érico Veríssimo, só para ficar nos exemplos mais conhecidos, passaram por esse pente fino. Enquanto os críticos os desprezavam, os leitores compravam os seus livros em grande quantidade e isto permitia que eles vivessem com os rendimentos da profissão de escritor. E nem por isso os críticos estavam certos. Exemplo: ninguém é capaz de negar que Rubem Fonseca é um dos maiores contistas que este país já teve.

A trilogia dos tons de cinza vende muito por uma combinação de fatores: caiu no gosto do leitor, foi lançada em meio a um competente esquema de marketing e a autora é de língua inglesa, o que faz grande diferença num setor cultural ainda contaminado pelo provincianismo ou seja, o que é de fora é mais aplaudido.

Os tons de cinza podem ser bons ou ruins, mas esta análise cabe a cada leitor. Eu dispenso os tons de E.L. James e prefiro a companhia de “Angústia” de Graciliano Ramos, ou “Extinção” de Thomas Bernhard, mas jamais posso querer que alguém faça a mesma escolha. É certo que o leitor vai encontrar prazer nos tons de cinza e vai ficar angustiado com a obra-prima de Graciliano Ramos. Também vai ficar desesperado com a mente destruidora do personagem-narrador criado por Thomas Bernhard. Como acontece com outras ações da vida, ler também é um problema da liberdade de ser e de existir.

Sabemos que o debate abre duas vertentes: de um lado, o da literatura descartável na qual inserem os tons de cinza, e de outro os tons de preto da literatura labiríntica que se propõe sublime e eterna como obra de arte. Tarefa difícil a de rotular um livro. A complexidade não é sinônimo de garantia de qualidade. Nas narrativas, a simplicidade também pode ser armadilha. Nada é mais complexo do que a dúvida simplista provocada por Machado de Assis quando deixa de descrever uma cena de adultério e, tantas gerações passadas, o seu eterno “Dom Casmurro” ainda desafia o leitor com a inevitável pergunta sobre Capitu: traiu ou não traiu? Só temos o ponto de vista de Bentinho, o marido dela, e isso é pouco. Mas é muito para fazer deste romance um caso sério para leitores de todo o mundo. A genialidade do Bruxo do Cosme Velho, como Machado era conhecido, não é para qualquer um.

A nossa sorte é que, ao contrário de outras ações, não somos obrigados a ler os tons de cinza. Compra e lê quem quer. E se preferimos os tons de preto às cores propostas por E.L. James? Então optamos pelos romances de Milton Hatoum. “Relato de um certo oriente” e “Dois irmãos”, que estão entre os seus títulos, não vendem como os livros de E.L. James. Mas certamente perturbam mais.

Ninguém sai de uma página de Milton Hatoum sem uma sensação de estranhamento do mundo e de identificação com as emoções e os sentimentos das suas histórias. A distinção feita por este escritor amazonense é compreensível e faz sentido quando se quer dizer que este é um livro que vale a pena ser lido e aquele outro pode ser descartado. O problema é que este discernimento pode ser feito de uma forma por uns, e de outra maneira por outros. Numa cultura como a nossa, tão focada em espetáculos e sufocada pela televisão, nada mais complicado do que a solidão do leitor na hora de escolher um título de livro. Perda de tempo querer pregar o que é certo ou errado e indicar o caminho das pedras. Quem somos nós para termos essa presunção? Melhor é deixar que muitos continuem optando pelos tons de cinza da autora inglesa, enquanto somente alguns prefiram levar “Extinção” para casa. Numa ou noutra situação, não há crime nos que preferem os tons de preto aos tons de cinza.

Apesar disso, podemos entender o fenômeno da trilogia de E.L. James como beneficiada por grande parte dos leitores que correm aos livros também por questão de entretenimento o que é uma justificativa legítima para abrir a primeira página de qualquer volume e ir adiante. E não há erro quando o livro cumpre essa função. Ler também é se divertir. Há histórias que fazem rir tanto quanto uma piada bem contada. As descrições que Fernando Morais faz do chefão da mídia Assis Chateaubriand em “Chatô, o Rei do Brasil”, quando ele chega de uma longa viagem ao Rio Grande do Sul, são de matar de rir. E os primeiros capítulos de “Estrela Solitária”; de Ruy Castro, são divertidíssimos depois ficam tristes demais, quando contam as histórias de decadência do genial Mané Garrincha.

O fenômeno dos tons de cinza também resgata pensamentos do alemão Arthur Shopenhauer (1788-1860) sobre esse problema. O filósofo era contra o ato de escrever por pagamento: “Pois é como se uma maldição pesasse sobre o dinheiro: todo autor se torna um escritor ruim assim que escreve qualquer coisa em função do lucro (A Arte de Escrever, LPM Pocket, pág. 56).

Shopenhauer chegou ao ponto de afirmar que a “condição deplorável” da literatura na sua época, dentro e fora da Alemanha, tinha origem no fato de os livros serem escritos para se ganhar dinheiro: “Qualquer um que precise de dinheiro senta-se à escrivaninha e escreve um livro, e o público é tolo o bastante para comprá-lo.”

Felizmente, os filósofos não são guias de coisa alguma e é possível contestá-los. Basta um único livro para derrubar a tese de Shopenhauer. “Cem anos de solidão”, a obra-prima de Gabriel Garcia Márquez, é um romance maravilhoso e vendeu tanto como salsichas em Buenos Aires na época do seu lançamento, como recordou o autor colombiano em uma entrevista. E não há dúvida de que esta obra une mercado e qualidade da mais alta exigência.

Também é verdade que um romance como “Avalovara” de Osman Lins, um dos maiores autores brasileiros do século 20, será sempre um livro de grande qualidade e pouco lido. Para Lins, a literatura não era uma questão de vender ou não vender livro. Para autores como Lins, Raduan Nassar, Milton Hatoum, escrever é uma ação física, mental, estética e transformadora. E tão natural e necessária como respirar, suar a camisa e se apaixonar. Não importa se o resultado agrada ou não ao leitor. Escrevem mais por fluxo de consciência do que por apelo de mercado.

“Produzir cinquenta tons de cinza é fácil, quero ver fabricar cinquenta tons de preto”, disse uma amiga numa conversa sobre a trilogia de E.L. James. Tradução: atrair o leitor pela leveza e entretenimento é lugar comum, quero ver seduzi-lo com as catástrofes da existência. Para fazer valer esta segunda idéia, só mesmo pela via dos 51 tons de preto. Quem se atreve?

Fonte: Livros só mudam pessoas